Guerra infinita

A década de 1970 era um passado esquecido para Luigi Taiani. Nascido em 1965 em Lamezia Terme, na Calábria, Taiani fazia parte das primeiras gerações de italianos do pós-guerra, cheios de fé em uma região que despontava como uma espécie de Califórnia italiana.

Os sonhos de Luigi Taiani ruíram no verão de 1985.

Durante a madrugada de um dia comum, um furgão da empresa de seu pai Antonio pegou fogo ─ aparentemente de forma acidental. Dias depois, a família recebeu um telefonema esclarecedor: o incêndio havia sido provocado a mando da máfia. Para evitar novos percalços, Antonio Taiani deveria contribuir com o pizzo, palavra que no dicionário mafioso significa “extorsão”. Pagamento em troca de paz. Dinheiro em troca de proteção.

Luigi Taiani foi o responsável por atender aquela ligação. No mesmo ano, assumiu o comando da empresa que importa espécies aromáticas de diversas partes do mundo ─ inclusive do Brasil. A postura de Luigi ao telefone foi ditada pelo próprio pai, no confronto com o primeiro pedido de pagamento feito por um clã criminoso: negar sempre.

“O pizzo é a mortificação. Se você paga uma vez, paga pela vida toda”, me disse Taiani em 2010 enquanto acendia um cigarro em sua sala de trabalho no distrito industrial de Lamezia Terme, cidade com uma das mais altas taxas de infiltração mafiosa do mundo. Cerca de 70% dos empresários pagam o pizzo, seja em dinheiro ─ quantia que ronda os três mil euros por mês, estimativa muito imprecisa ─, seja empregando pessoas indicadas pelos clãs ou comprando de revendedores impostos pela organização. Descontando-se as empresas que são parte do próprio sistema criminoso, a resistência simbolizada por ele não chega a 5% dos empreendedores.

Enquanto conversávamos por quase duas horas, Luigi não tirou os olhos de um monitor dividido em seis telas, todas conectadas a câmeras de vigilância que vigiavam cada metro da empresa. É assim também em casa. Desde o primeiro atentado sofrido em 1985, a família nunca mais teve paz. Diante das dezenas de negativas de pagamento de pizzo, os clãs tornaram a vida do empresário um desafio diário de sobrevivência. “Começaram a disparar contra nossos carros, contra nossas casas”.

Seis carros e um galpão foram incendiados ao longo dos anos. Taiani recebeu telefonemas no meio da madrugada, ameaças, sofreu com perseguições. Em 1995, encontrou no terreno de casa a cabeça de um lobo com a própria cauda na boca, costurada.

“Aquilo era uma recado claro: na próxima, te matamos”, lembrou.

Antonio, o pai, foi atingido por dois tiros de fuzil em 2005 enquanto dirigia. Os disparos foram feitos de um viaduto e tinham como objetivo matar Luigi. Naquele dia, pai e filho haviam trocado os carros.

Mesmo gravemente ferido, Antonio não desistiu. A máfia também não.

Poucos meses depois, a família recebeu a notícia de mais um atentado: a empresa dos Taiani havia sido incendiada. Diante dos destroços ─ não sobrou nada na área de manufatura ─, sentado com o pai no escritório que havia resistido às chamas, Luigi quis parar. “Pensei que depois de 20 anos de luta eles tinham me vencido, eu estava prestes a fechar tudo. No dia do incêndio, aqui neste mesmo escritório, vi meu pai chorar. Eu jamais havia visto meu pai chorar. Naquele dia, mesmo diante da vontade de abandonar tudo, busquei o pedaço de honra que tinha me sobrado e fui em frente.”


Taiani morreu em 24 de setembro de 2011, de infarto. Morto de máfia.


Maria Carmela Lanzetta tem 56 anos e dirige uma farmácia em Monastarace, na Calábria. Em julho de 2013, após sete anos como prefeita da cidade, desistiu. Sua luta era a mesma de Luigi Taiani: combater a ‘ndrangheta, máfia calabresa considerada uma das associações criminais mais complexas e poderosas do mundo. Teve a farmácia queimada e o carro coado por disparos. Uma história que se repete, a história da guerra infinita. Deixou a prefeitura por se dizer abandonada pela política.

Na semana passada, o novo premier italiano Matteo Renzi convidou Maria Carmela para assumir a cadeira de ministra dos Assuntos Regionais. A farmacêutica recebeu a notícia menos de meia hora antes de ver seu nome na imprensa. Ainda vestia o jaleco. Aceitou, porque a Itália precisa de gente como ela. Assim como precisava de Luigi Taiani.

Written by Leandro Demori

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