Uma amiga em Bari

São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.

Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra estéril, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais das guerras.

O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.

Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de um conflito que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — parecem não querer ter vida pregressa —, e curiosamente querem permanecer no país que tem tropas em sua terra natal.

“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos prontos de massa italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto na Wikipedia mostra um moderno centro de ocidental. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.

Jalalabad, julho de 2013. Funcionários da prefeitura limpam da rua o sangue de dois mortos, vítimas de uma bomba escondida em uma bicicleta. (Parwiz)

Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.

Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei
europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam fazer com que sua ‘vida europeia’ recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.

Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a
Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar.

Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano a justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, até o ar que se respira.

Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.

Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o
italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira
pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva
talvez conseguisse trocar o Fiat feio e surrado ─ três camadas visíveis de
pintura em tons mal calibrados. Não parece se importar.

Afegãos têm um jeito peculiar de cumprimentar. Apertam minha mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.

Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.

Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali
estão, vestem camisolões longos e calças largas brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clichê dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.

Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os
hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas — minoria dentro da
população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escorraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.

Afegãos hazaras em fuga da província de Daykundi. 2011. (Karla K. Marshall)

Se aproxima o Ramadã, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.

Faz 40 graus na cidade e não se pode sentir um fio de vento em baixo da estrutura que os abriga ─ e ela fecha durante o dia. Não podem estar ao reparo do sol que não procurando os cachopentos pinheiros romanos, tornando o Ramadã uma autêntica prova de fé.

São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.

Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.

Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:

Todos os afegãos têm celular.

Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente: perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país antes de ser deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis, deportados.

22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.

Written by Leandro Demori

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *